A invisibilidade social no MRE: o que se vê e o que não se vê no cotidiano da chancelaria brasileira¹ ou se um/a embaixador/a vestisse um uniforme de contínuo/a?
Por Evaristo Nunes, oficial de chancelaria 
Brasília, 30/09/17

Esses dias, Rodrigo Merheb, que sabe visibilizar os indivíduos em sua volta, contava-me sobre o seu prazer em trabalhar com um outro colega, o histórico Valdir, que tem como maior qualidade conhecer e ajudar os "personagens invisíveis" da organização que mantêm a instituição de fato em pé. Quem são esses seres invisíveis socialmente no MRE?

No livro “Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social”, Fernando Braga da Costa, por meio de um experimento de troca de papéis, muda sua posição de professor da Universidade de São Paulo, vestindo-se e trabalhando como gari da mesma universidade, inclusive dentro do mesmo departamento de psicologia. Depois de anos fazendo o experimento, nenhum outro professor, aluno ou servidor da USP o reconheceu ou perguntou o seu nome. Como conclusão do trabalho, ele comprovou que os trabalhadores braçais no Brasil sofrem uma invisibilidade contundente, pois são “seres invisíveis, sem nome”. Em suma, o gari era visto como um fato físico da paisagem, pouco olhado como indivíduo e jamais enxergado na sua subjetividade constitutiva.

Quão socialmente invisíveis são as pessoas em cada nível de análise no Ministério das Relações Exteriores²?

Em um instituição que se acostumou à prosopopeia (Ex: "O Brasil demonstrou ... "; "O Itamaraty pensa..."; "o Ministério disse..."; "a Casa acha … "; "A SERE informa..."; "A Embaixada se pronunciou...";"o Consulado confirma ...") e ao esconderijo de uma assinatura genérica nos telegramas, como "O Embaixador" e "Exteriores", a invisibilidade dos indivíduos é uma constante histórica, salvo quando há um desejo auto-laudatório da organização na atuação do indivíduo, acompanhando a tradição ocidental de construção de heróis e de espaços memoriais que se confundem com as instituições.

Somando toda a força de trabalho, grosso modo, cerca de ⅔ de toda a organização é completamente invisível aos olhos do público externo e da maior parte do público interno, inclusive, porque juridicamente essa parcela é composta de uma força de trabalho de não servidores públicos³. Da mesma maneira, os aposentados são invisíveis nos corredores, a não ser para as associações e para o sindicato, e os membros das famílias são da mesma maneira desconsiderados como subjetividade identificada, em que pese todo o esforço solitário da associação dos familiares. Assim, sobraram cerca de 3 mil indivíduos visualizáveis. Desses, quantos são realmente visíveis?

Essa invisibilização pode ter um série de razões, entretanto, é essencial compreender como o nível de análise influencia esse processo de invisibilização dos indivíduos. Partindo dos níveis de atuação de uma chancelaria, do mais alto para o mais pedestre, quem é visível atualmente pelo público externo e pelo público interno? Segue um pequeno resumo tentativo tabulado na área fim e na área meio:

Nível de Análise Quem é visível
Área Fim - Governança Global

 

Ninguém atualmente.

 

Área Fim - Geopolítica

 

Ninguém atualmente.

 

Área Fim - Relações internacionais

 

Presidente da República e Ministro de Estado.

 

Área Fim - Política internacional

 

Presidente da República, Ministro de Estado, Secretário Geral e alguns Subsecretários.

 

Área Fim - Política externa

 

Ministro de Estado, Secretário Geral e Sub-Secretários, exceto o SGEX e SGEB, e alguns Embaixadores.

 

Área Fim - Relações Diplomáticas

 

Os Sub-Secretários, exceto o SGEX e SGEB, embaixadores e alguns chefes de departamentos especializados.

 

Área Fim - Relações Consulares

 

O SGEB e alguns diplomatas em função de cônsul geral.

 

Área Meio - Geral 

 

Diplomatas que chegam a SG, SGEX, DSE e alguns DAS 5.

 

Área Meio - Grupos de Carreiras 

 

Alguns diplomatas com chefia a partir de DAS 4 ou a partir  de média patente para cima

 

Área Meio - Indivíduos

 

Alguns diplomatas em funções chave da burocracia e Presidente do Sindicato

 

Área Famílias Presidente da AFSI

A partir desse quadro geral, dos 3 mil indivíduos (ou almas, no sentido antigo como se dizia até o século XIX), cerca de 300 indivíduos são visibilizados de alguma maneira externa e internamente no seu nicho de atuação, sendo isso menos de 3% da força total de trabalho5. Ser tratado pelo nome é um extrato muito pequeno de indivíduos. Se o objetivo é esconder a atuação e as decisões dos indivíduos por trás de uma embalagem geral institucional, o resultado é estupendo.

Entretanto, considerando que a visibilização é um sinal de poder, estratificando esses indivíduos com capacidade visibilização, é possível dizer que a organização orbita em torno de uma faixa etária específica. Há quem já tenha usado uma expressão ainda a ser problematizada: "gerontocracia". Se é ou não uma captura da organização por parte de uma faixa ainda é um debate em aberto, mas o fato é que a visibilização se dá em uma faixa etária específica, em uma só carreira específica, em posições chave e, preponderantemente, em um só gênero e raça.

Não há dúvida, contudo, de que a invisibilização molda a agenda da organização e tem efeitos concretos nas relações sociais, na saúde do trabalho, nas relações interpessoais, na gestão de pessoas, na gestão das carreiras, no pertencimento, nas patologias psiquiátricas e distúrbios psicológicos já identificados.

Sem querer esgotar o tema, seria possível falar dos colegas heróis invisíveis trabalhando nas guerras ou na iminência de conflitos, nos desastres, como ghost writers6, nos colegas que perdem noites em atendimento nos presídios ou nos bastidores de várias negociações, sem nunca terem serem tratados pelo nome. Mas aqui eu quero provocar a reflexão a partir da história de um dos personagens da paisagem do MRE mais visíveis nos corredores e mais invisibilizados socialmente.

Primeiro Plano - Descer do nível global para o mundo dos indivíduos mais invisíveis - "O Contínuo"

Às cinco horas de uma manhã qualquer de sequidão de setembro em Brasília, uma trabalhadora levanta para iniciar seu dia longo e seco. Se não despertar nesse horário, perderá o único ônibus que a conduzirá à Esplanada dos Ministérios vindo de Sobradinho II. Distante a 30 km do seu trabalho, certamente, passará algo como 1h30min desde que sair de casa, e cujas passagens custarão algo como 20% do seu salário ao final do mês.

É mais um rosto perdido na multidão sonolenta que fará seu caminho em uma só direção, tal qual formigas em dia de colheita rumo a um só ponto da floresta onde há folhas verdes ainda. Baterá seu ponto eletrônico frio e calculista. Passará em revista da sua supervisão, que zelará pela aparência e prontidão. Ao pegar o elevador, ainda sonolenta, lembrará que, há cinco anos, não conhece o que são férias gozadas, porque as empresas em que trabalha sempre "quebram" no meio do contrato. Nunca é possível usar do descanso, quando não lhe custa receber as verbas rescisórias. Ela sempre chega antes de todos e abre a "Divisão", um espaço de alguns metros quadrados em que tudo já está dividido, do espaço físico ao acesso ao telefone.

Acostumou-se a receber um novo uniforme todos os anos, com o nome de um empregador diferente, com nomes inusitadamente mais frios do que o anterior, como "GVP", ou cínico, como "Máxima" ou "Presta". Essa pessoa tem um prenome conhecido por todos de sua "Divisão" (aqui começa a divisão entre os visíveis e os invisíveis). Até mesmo um apelido dos "colegas" de setor ela pode ter, mas ninguém sabe seu sobrenome, onde mora, o que pensa, o que estudou. Essa é a realidade de um cem número de indivíduos invisíveis da Esplanada, que sustentam o tecido social do trabalho na capital mais desigual do Brasil e com o maior PIB per capita entre as mesmas capitais. A distância salarial entre ela e seu chefe pode chegar a 20 vezes.

No MRE, o contínuo encerra uma invisibilidade dramática, sistêmica, mas ainda há outra mais dramática, da porta da divisão para fora. Há seres mais dramaticamente invisíveis, o "pessoal da limpeza". Trabalhadores braçais por definição, tal qual descritos pelo Professor Costa, esses não têm nome, porque nem divisão têm. Não têm o mesmo nível escolar, porque ninguém nem se importa com isso, não têm qualquer voz na organização, porque são invisíveis a todos, são de uma mesma classe social, moram fora do Plano Piloto e são negros e pardos. O resto é desigualdade e invisibilidade social, sob o auspício governamental e dos demais indivíduos, inclusive de quem também é invisibilizado em outros níveis de análise. Ver, olhar e enxergar não são a mesma coisa, mas têm as mesmas vítimas.

Não é a proposta deste texto trazer conclusões ou agendas de mudança, porque cada um tem um espelho para a sua alma e para a do outro, onde vai encontrar os seus próprios mecanismos de invisibilização e visibilização. Por fim, mesmo os mais indivíduos mais visíveis hoje não têm nenhuma garantia de serem visíveis para sempre, quando, principalmente, mudarem as condições políticas ou quando for publicadas as suas aposentadorias.

[1] Este artigo é sobre pessoas reais, único nível de análise onde se encontram as dores e as delícias invisíveis socialmente. Não serão apresentados nomes, somente pistas, com exceção de quem inspirou esse debate.

[²] Melhor seria nunca termos mudado a denominação clássica de Ministério dos Negócios Estrangeiros, como fez Portugal, até porque a tradução corrente é Ministry of Foreign Affairs, e como fez o Ministério da Fazenda do Brasil.

[³] Esse grupo é formado por terceirizados no Brasil e no Exterior, contratados locais no exterior, estagiários, contratados por organizações internacionais, prestadores de serviço de empresas e contratados autônomos.

[4] Para efeito metodológico, utiliza-se o critério de visibilidade aquele indivíduo que consegue superar o anonimato por serem citadas diretamente pelo próprio nome seja na imprensa na atividade fim, seja nos meios internos nas atividades meio, os demais são tratados invisivelmente externa e internamente.

[5] Contabilizados servidores e não servidores.

[6] No que Sérgio Danese, em Diplomacia Presidencial - História e Crítica, (1999) rebatiza de "speech-writer" ou pejorativamente de "rapaz dos discursos".

 

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