Por Arnaldo Salabert, conselheiro 

Na manhã do dia 18 de setembro de 2017, uma segunda feira, acordei com uma mensagem no meu telefone da funcionária Waldima Burns, que trabalha comigo na Embaixada em Roseau: “Embaixada fechada hoje – furacão Maria se aproximando”. Fiquei muito surpreso com essa notícia. Dias antes eu havia acompanhado a trajetória do furacão Irma, que destruiu a ilha de St Marteen, por onde eu tinha passado há pouco. Mas, ainda na véspera, eu não tinha ouvido falar de nenhum furacão Maria.

O furacão havia se formado durante a noite. E apenas naquela manhã não parava de escalar, alcançando a categoria máxima na hora do almoço. Ao que tudo indicava, a trajetória do furacão vinha direto para a ilha de Dominica. Nessa hora, o primeiro ministro Roosevelt Skerrit fez pronunciamento no rádio, confirmando: “Esse furacão está vindo diretamente na nossa direção. Não há como evacuar a ilha em tão pouco tempo. Barcos e aviões já pararam de circular. Levem muito a sério este aviso e, por favor, protejam-se como puderem. Retirem objetos soltos em volta das suas casas que possam virar projéteis, como cadeiras, caixas ou pneus. E vamos orar ao Todo Poderoso!”

Ora, pensei, o próprio Todo Poderoso nos envia esse furacão, então não parece ter muito sentido pedir a Sua proteção a essa altura. Assim mesmo, segui as sugestões do primeiro ministro: retirei as cadeiras de ferro que estavam em volta da piscina e estacionei o carro dentro da garagem. Passei a tarde torcendo para que a trajetória do furacão desviasse na última hora, como eu já testemunhara em Houston por ocasião do furacão Rita (2005). Mas, infelizmente, não foi o caso. Luz e água foram cortados preventivamente ainda antes do furacão começar. A partir das 7 da noite, o vento começou a uivar forte. Comi apressadamente alguma coisa na cozinha e depois me tranquei no meu quarto, mais especificamente no banheiro, onde se diz que é mais seguro.

O vento aumentava mais e mais. A escuridão era total e mais se adensava com uma forte neblina. Não dava para saber exatamente o que estava acontecendo, eu só ouvia barulho de coisas caindo e quebrando. A porta de vidro da varanda do quarto sacudia violentamente e parecia que ia estourar a qualquer momento. Apesar de eu saber que não era seguro, passei a maior parte do tempo perto da janela do banheiro, curioso para conseguir ver alguma coisa.

Por volta de meia noite o vento parou. Vi da minha janela os vizinhos saindo de suas casas com lanternas para avaliar os estragos. Eu fiquei no meu canto, pensando: “Não! Não saiam! Ainda não acabou! Isso é só o olho! O vento vai recomeçar!”

E, exatamente como eu previra, vinte minutos depois, o vento começou de novo, e até mais violento e com mais chuva, mas, estranhamente, acompanhado de menos barulho de coisas se estilhaçando. Provavelmente, o que tinha que cair já tinha caído. Depois de cinco horas de furacão, mais outras cinco horas já não fazem diferença!!

Só às 7 da manhã, quando começou a clarear, o vento começou a diminuir, mas só foi parar mesmo ao meio-dia. Foi uma noite de pesadelo, que, de certa forma, se prolonga até hoje. O mar amanheceu barrento e muito agitado. Todas as árvores (todas, na ilha inteira) perderam as folhas ou foram arrancadas pela raiz. Pontes caíram, não sobrou nem um poste em pé, quase todas as casas perderam seus telhados, muitas ficaram reduzidas às paredes.

De imediato, não tinha como me comunicar com o Ministério para avisar que eu havia sobrevivido. Na quarta-feira, a cozinheira da residência apareceu e me levou para o centro da cidade. Eu queria ver o que tinha acontecido com a Embaixada, mas não consegui chegar lá. Um rio literalmente passava por cima da estrada. Muitos postes e árvores bloqueavam o caminho e, sobretudo, havia muita lama e muitos escombros espalhados por toda a parte. Percebi que não haveria condições de continuar trabalhando, sem luz, sem comunicações, e comecei a procurar uma maneira de sair da ilha.

O que acabou de me convencer de que eu não deveria permanecer foram as cenas que eu presenciei no centro da cidade: homens, mulheres e crianças saqueavam o que podiam, depósitos de supermercados, lojas de eletrodomésticos, sapatarias, farmácias. A situação tinha tudo para sair de controle e se transformar em violência generalizada, com as famílias desesperadas que tinham perdido tudo e com a nenhuma ajuda que recebiam. Homens circulavam com facões na mão. Até carros capotados pelo vento estavam sendo saqueados. O colapso dos meios de informação (inclusive telefone) acrescentava um ingrediente importante ao caos: circulava boato de que um outro furacão como aquele poderia se formar da noite para o dia e ninguém poderia ser avisado. Ninguém sabia que ruas estavam trafegáveis e se era possível ir para tal ou tal localidade.

Milagrosamente, na quinta-feira à noite o meu telefone voltou a ter sinal de internet (para isso eu tinha economizado avaramente a minha bateria). Consegui fazer contato com o grupo de emergências da DAC que articulou minha evacuação juntamente com a funcionária Waldima Burns em helicóptero venezuelano que traria ajuda humanitária no dia seguinte. O helicóptero levantou vôo do estádio e nos levou para Santa Lúcia, uma das ilhas vizinhas, onde permanecemos até recebermos passagem de volta ao Brasil.

Dominica e outros Estados-ilhas se preocupam com o aquecimento global, não apenas por uma possível subida do nível dos mares, mas também pela ocorrência cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos. A temporada de furacões no Caribe em 2017 foi especialmente furiosa, terminando com o furacão Ophelia, que seguiu uma trajetória incomum, se deslocando para Leste, atingindo os Açores e indo terminar na Irlanda! Onde as mudanças climáticas vão nos levar? Está nas mãos (e nas consciências) dos líderes mundiais perceber a parcela de responsabilidade das atividades humanas nesses fenômenos “naturais”.

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